A Indústria dos Concursos

Após falar para quase 1.000.000 de pessoas que estão fazendo concursos públicos,
muitos me chamam de “o guru dos concursos”, atividade que frequentemente tem me levado a
ser objeto de entrevistas da mídia. Além das perguntas sobre como ser aprovado, são
constantes as indagações sobre a “indústria dos concursos”. O jeito como se fala nela, a
entonação, até as expressões faciais, dão a quase certeza de que aos que entrevistam, assim
como a muitos, parece que é ruim haver uma tal de “indústria dos concursos”.

Defender e apoiar os concursos ultrapassa, em muito, o interesse individual dos
candidatos, e também das pessoas que trabalham com esse público. A população, de um
modo geral, já percebeu o concurso como um patrimônio do país e uma oportunidade aberta a
todos que optam por, sem depender de compadrios e parentescos, ter acesso aos cargos
públicos, e, claro, podem assustar-se com essa “indústria”, como se ela tivesse algo de imoral
ou nocivo.

A seleção adequada, feita pelo mérito, e não por métodos escusos (fisiologismo, laços de
família etc.), é a maior garantia de: (1) que qualquer cidadão possa participar da Administração
Pública – o que tem tudo a ver com uma República (res: coisa + publica: de todos); e (2) que os
cidadãos serão atendidos no serviço público pelas pessoas mais capazes. Ao contratar
servidores pelo mérito, em seleções públicas e abertas a todos os brasileiros, diminuímos o
espaço para os favores e negociatas por parte dos governantes, os quais sempre são feitos
com os bolsos do contribuinte.

Escolher bem, treinar e valorizar o servidor público é um instrumento do aperfeiçoamento
do país e dos anseios por igualdade, justiça e progresso. Sou um entusiasta dos concursos e
do serviço público. E, por isso mesmo, comento aqui sobre a “indústria do concurso público”.
Este é um país curioso. Coisas que deveriam gerar indignação, a ponto de levar o povo às
ruas – como mensalões, nomeações e contas secretas -, não recebem a repercussão devida; e
a pouca obtida se esvai logo no próximo escândalo. Outras coisas, que deveriam ser
comemoradas, geram um desconforto e até críticas ácidas de pessoas que, quando menos,
não entendem muito do assunto.

Criticar qualquer “indústria”, mesmo que honesta, tem a ver com a cultura de nosso país,
avessa à produção, ao empreendedorismo e à admiração por quem trabalha. Pesquisas
mostram que o brasileiro acredita que o sucesso decorre mais da sorte, do casamento ou da
corrupção, e menos como resultado do estudo ou do trabalho. A riqueza tem sido vista como
indício de desonestidade. Um novelista “global” chegou a dizer que ser milionário, neste país, é
algo que gera ódio. Nessa linha, suspeitam e falam mal da “indústria dos concursos”.
Sim, existe uma nova indústria, e boa, a tratar desse espaço que foi criado pela instituição
dos concursos públicos como forma prioritária de acesso aos cargos e empregos públicos. As
pessoas querem se preparar para as provas. E ainda bem que surgem pessoas e empresas
para atender a essas necessidades. Pior era antes, onde não se podia querer estudar para
concursos, pois os cargos eram preenchidos pelos amigos, parentes, cônjuges, sobrinhos,
netos, cunhados, cabos eleitorais, ou até por quem se dispusesse a dividir com o chefe ou
autoridade uma parte, em geral considerável, da remuneração mensal a que teria direito.

A chamada “indústria dos concursos” serve aos “concurseiros”, sim, mas muito mais ao país,
pois, aumenta o nível dos candidatos e permite que a Administração Pública selecione os
melhores. Se as exigências e requisitos, se os conteúdos programáticos forem bem escolhidos,
fará com que o serviço público seja cada vez melhor, em benefício do titular do Poder, o povo.

As esperanças de um país mais justo são depositadas, em boa parte, na existência de
servidores competentes, dedicados e probos. Escolhê-los pelo mérito e entre o próprio povo é,
para tanto, um bom começo, embora não seja, por si só, uma garantia da competência e da
capacidade técnica. Se há “indústrias” que precisam acabar, são as do nepotismo, do cargo em
comissão, das nomeações políticas – e não técnicas – para a Petrobras, para as agências
governamentais, Ministérios etc. Pessoas incompetentes, sem compromissos com o povo, sem
interesse em nada senão em aproveitar uma “teta” pública e em agradar quem o nomeou…
Isso sim é uma “indústria” terrível e lamentável.

Além de servir aos concurseiros e, por extensão, à Administração Pública, a chamada
“indústria dos concursos” representa palco para o surgimento de excelentes professores. Em
nosso ramo, não oferecemos diplomas nem títulos, e não somos cobrados por nada senão por
resultados imediatos. Lidando com pessoas que, em geral, estudam matérias que nunca viram,
ao final da lida do dia, com grande esforço e sacrifício, os professores dos cursos preparatórios
estão no topo de uma elite que é exigida de forma dura, constante e profunda. Não bastasse
isso, os cursos, editoras, sites e jornais especializados representam fonte de trabalho, tributos,
geração de riqueza e de oportunidades profissionais para milhares de pessoas. Pessoas que
estão a serviço de outras, a serviço do ensino, da educação e de uma nova forma de
empregabilidade voltada para o serviço público.

A onda dos concursos também está gerando um novo efeito. Os concursos não
discriminam a mulher, o negro, o homossexual, quem não teve primeiro emprego, quem tem
mais de 40 anos, quem é pobre ou deficiente, e muito menos aquele que não ostenta uma “boa
aparência”, qualquer que seja o conceito que se tenha dela. As vantagens oferecidas pelo
serviço público, um bom empregador, servem atualmente como contraponto e desafio para as
empresas privadas, que já se preocupam em como atrair os melhores talentos.

O serviço público hoje é bastante sedutor. Torço para que continue assim. No geral,
remuneração, qualidade de vida e sentido de serviço ao próximo transformam o serviço público
em uma excelente opção. A iniciativa privada, cujo funil de ascensão é enorme, não oferece
tantas oportunidades de crescimento meteórico ou extraordinário a partir do cargo assumido,
mas, se levarmos em conta a quantidade de pessoas que realizam isso, e – em todos os casos
– as angústias típicas dos empregos privados, podemos dizer que o concurso não deixa de ser
uma excelente opção. Não que a iniciativa privada não seja interessante, e muito menos que
não seja necessária ao país. São apenas opções, todas dignas, todas válidas, todas com suas
vantagens e desvantagens.

Quem escreve aqui é um dos dez milhões de brasileiros que optou pela carreira pública e
que dela tem orgulho. Orgulho de ser “concurseiro”, orgulho de ser servidor. A meu ver, mais
que tudo, o serviço público é uma bela carreira e, de tudo o que oferece, a oportunidade de
servir ao próximo, sendo remunerado pelo governo, parece a sua mais sublime característica.

Naturalmente, o primeiro momento é aquele em que se pensa na estabilidade, remuneração,
status e o que mais seja. Passada a primeira impressão, contudo, o que vale mais é saber que
todos podemos ser servidores, se quisermos, e que fazê-lo nos dignifica e nos permite ser,
para o país, filhos úteis.

Por tudo, vida longa ao concurso público e a todos que o procuram ou que servem aos que
o procuram. E, no fim, que sejamos todos, ao país, filhos úteis.

William Douglas é Juiz Federal/RJ, Mestre em Direito, Especialista em Políticas Públicas e
Governo, autor de mais de 33 livros sobre Direito e Educação.

Elisa Oliveira

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